O Milho e o Ouro
(…) Se na verdade fossem deuses [personagem Cortés, e os espanhóis], preocupar-se-iam com a terra, com a sementeira, preocupar-se-iam em garantir o alimento dos homens e isso não acontecia. Em nenhuma ocasião os via interessados nos milheirais, apenas em comer. Se Quetzalcóatl [Deus Maia] tinha roubado a semente do milho do Monte do Nosso Sustento para dar aos homens, não lhes interessava saber como tratavam os homens a sua grande oferenda? Não tinha curiosidade em saber se [personagem Cortés], ao comê-lo, recordavam a origem divina? Se o protegiam e veneravam como uma coisa sagrada? Não o preocupavam que os homens deixassem de semear o milho? Então? Não saberiam os homens, acaso, que se deixassem um dia de semear o milho, o milho morreria? Que a maçaroca precisa da intervenção dos homens para ser limpa das folhas que a cobrem e, desta forma, a semente fica livre para se reproduzir? Que não há a possibilidade de o milho viver sem os homens nem os homens sem o milho? O milho precisar dos homens para se reproduzir era a prova de que era uma oferenda dos deuses aos seres humanos, pois caso estes não estivessem presentes no mundo, os deuses não teriam a quem a oferecer o milho, e os homens, por outro lado, sem o milho não poderiam manter a sua vida na terra. Não saberiam que nós somos a terra, que da terra nascemos, que a terra nos come e que, quando a terra estiver cansada, quando o milho deixar de nascer, quando a mãe terra deixar de abrir o seu coração, será também o nosso fim? Nesse caso, de que serviria ter ouro acumulado se milho? Como era possível que a primeira palavra que Cortés se interessou em aprender em náuatle fosse precisamente «ouro» em vez de «milho»?


Um comentário:
andavam todos a trás da "merda amarela", como lhe chama Gabriel García Márquez...
csd
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