domingo, 21 de março de 2010

Afurada

Desde há umas semanas que tenho um pequeno ritual de fim-de-semana. Não é meu habito fazer algo por rotina, mas esta está a agradar-me. Todos os sábados e domingos de manhã vamos tomar o pequeno-almoço à Afurada. Ao Sábado damos, depois, uma volta pela feira e ao Domingo compramos regueifa. Depois caminhamos cerca de uma hora, enquanto os miúdos estão no treino.

Como vamos sempre ao mesmo local as pessoas começam a conhecer-nos e por vezes conseguimos fazer parte das brincadeiras e conversas de circunstância. Na próxima semana já nem devemos ter de fazer o pedido, já sabem quase de cor o que queremos: regueifa a sair do forno com manteiga e dois galões (um de cevada) claros e mornos (embora venham sempre a escaldar).

Há medida que vamos à Afurada e nos vão vendo por lá, começamos a fazer parte daquele cenário. É curioso como há coisas que não mudam, e outras que, sem mudar muito, se notam diferenças.

O preto é cor predominante. O Luto faz-se, para sempre.

O ouro é vistoso. Nas orelhas, nos dedos. Brincos e aneís grossos. Os dotes, as poupanças das famílias penduradas nas orelhas. Mesmo as mais jovens ostentam brincos dourados e grandes. Mas os das mais velhas tem pedras e brilhantes.

Os aventais nas mais velhas são elaborados, bordados com bolsos. As mais novas já não usam. Nem os xailes. Mas os aventais e os xailes já não são como dantes. "Vamos aos 300", diz uma. "Vi um avental que quero levar". As lojas de 300 (que embora já não o sejam conseguiram ficar com o nome) e as lojas dos chineses conseguiram dar uma lufada de ar fresco às pesadas roupas destas gentes. Os chinelos foram substituídos pelas 'crocs', os xailes pelos polares, as meias de lã pelas leggings. Os aventais são mais finos, mais coloridos e mais baratos. As saias tem lantejoulas, as blusas com brilho e dourados.

Sempre que me sento na mesa da padaria reparo nas mesmas pessoas. As três amigas que se encontram para irem caminhar. A família de ciganos que leva o frango e compra o pão e as bebidas para acompanhar. O casal que só lá vai tomar um café. As conversas de rotina.

Gosto deste ambiente. Sinto-me bem. Como se pertencesse a ele.

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